Seu Mário, do Caneco Gelado, morre aos 84 anos e deixa saudade em Niterói

Seu Mário, do Caneco Gelado, morre aos 84 anos e deixa saudade em Niterói

Comerciante português transformou restaurante do Centro em um dos endereços mais tradicionais da cidade

Por Wellington Serrano Gomes

Niterói perdeu neste sábado (3) um dos personagens mais queridos e conhecidos de sua história gastronômica. Morreu, aos 84 anos, Mário Martins Ribeiro Carvalho, o Seu Mário, fundador do tradicional Caneco Gelado do Mário, no Centro da cidade. Por mais de cinco décadas, ele esteve à frente do restaurante que se tornou referência não apenas pelos pratos de inspiração portuguesa, mas também pela maneira carinhosa com que recebia seus clientes.

Português de nascimento, Seu Mário chegou ainda criança a Niterói e construiu sua vida na cidade. Em 22 de novembro de 1969, inaugurou a Lanchonete Ponte Rio-Niterói, que anos mais tarde passaria a se chamar Caneco Gelado do Mário, numa referência às canecas de alumínio nas quais servia a cerveja. O estabelecimento está localizado na Rua Marquês de Caxias e atravessou gerações de niteroienses.

Entre as maiores marcas da casa estava o tradicional bolinho de bacalhau, cuja receita tinha origem na memória familiar de Seu Mário. A inspiração, segundo ele próprio contou em entrevistas, vinha da avó, que mantinha um bar em Portugal e preparava o salgado nas festas de São Bento. O petisco se transformou em uma das maiores referências do restaurante.

Mas quem conheceu Seu Mário sabe que a história do Caneco Gelado não se resume à comida. O comerciante fazia questão de estar perto dos clientes, conversar, acompanhar o movimento e manter uma relação pessoal com quem passava pelo restaurante. Em 2019, ao completar 50 anos de história, ele resumiu a relação com o estabelecimento em uma frase que ficou marcada: “Minha vida é dentro do meu restaurante”.

LEMBRANÇA QUE EU VIVI

A morte de Seu Mário também despertou lembranças pessoais de quem teve a oportunidade de conviver com ele. Uma delas é a minha que, durante o período em que trabalhava em A TRIBUNA, costumava passar diariamente pela Rua Marquês de Caxias a caminho das barcas quando saía da redação por volta da 21h.

Ao sair da redação, o caminho era feito a pé em direção à estação das barcas. No trajeto, havia uma parada quase obrigatória: o Caneco Gelado.

Eu saía da redação de A TRIBUNA e ia caminhando para as barcas. Passava pela rua do restaurante e sempre levava um jornal para o Seu Mário. Ele recebia o jornal com aquele jeito simples e carinhoso e, prontamente, me presenteava com os tradicionais e deliciosos bolinhos de bacalhau.

Era um gesto aparentemente simples, mas que dizia muito sobre Seu Mário. Ele tinha a capacidade de transformar uma passagem rápida pelo Centro em uma lembrança afetiva. O jornal entregue no balcão virava conversa, e a conversa muitas vezes terminava com os famosos bolinhos de bacalhau.

A relação construída ao longo dos anos ajuda a explicar por que a despedida de Seu Mário não representa apenas a morte de um comerciante. Para muitos niteroienses, vai embora uma figura que fazia parte da paisagem, da rotina e da memória da cidade.

O Caneco Gelado do Mário recebeu diversas homenagens ao longo de sua trajetória e foi reconhecido como Patrimônio Cultural de natureza imaterial do Estado do Rio de Janeiro. A casa também ganhou prêmios pela gastronomia e pelo reconhecimento popular.

A despedida de Seu Mário está marcada para esta segunda-feira (5), das 10h às 13h, no Cemitério da Irmandade do Santíssimo Sacramento, no Barreto. A missa de sétimo dia será realizada no sábado (10), às 17h, na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, no bairro de Fátima.

Niterói perde Seu Mário, mas ficam as histórias, as amizades, as conversas no balcão e, principalmente, o sabor de uma cidade que aprendeu a reconhecer naquele homem português um pouco da própria identidade. Para quem recebeu seus bolinhos de bacalhau depois de entregar um jornal, fica também a lembrança de um gesto de amizade que o tempo não apaga.

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