Porto da Pedra abordará o tema da prostituição na Avenida

Porto da Pedra abordará o tema da prostituição na Avenida

Com o tema dos profissionais do sexo, Mauro Quintaes completa sua trilogia, após tratar de loucos e ladrões

A Unidos do Porto da Pedra, única escola de São Gonçalo a desfilar na Sapucaí em 42 anos de Sambódromo, reúne diversas particularidades: conquistou o acesso ao Grupo Especial logo em seu segundo ano no Carnaval carioca — após se apresentar em uma cidade vizinha — e se destaca por abordar grupos excluídos em seus enredos.

Na verdade, a ideia sempre foi fazer uma trilogia – diz o carnavalesco Mauro Quintaes, nome historicamente ligado à agremiação alvirrubra, responsável por seus primeiros desfiles na primeira divisão. – Depois de subir e ficar no Grupo Especial, nos anos 1990, nós falamos da loucura em “No reino da folia, cada louco com sua mania” (quinto lugar em 1997), e em seguida, dos ladrões, com “Samba no pé e mãos ao alto, isto é um assalto!” (13º lugar e rebaixamento no ano seguinte).

Muita água rolou sob a Ponte Rio-Niterói até que carnavalesco e escola se reencontrassem, em 2023, depois de 25 anos distantes. Três carnavais depois, com direito a um bate-e-volta no Especial, o artista de 68 anos está pronto para encerrar a trilogia.

– Depois dos loucos e dos ladrões, ficaram faltando as prostitutas – conta ele, que leva a escola à Avenida com “Das mais antigas da vida, o doce e amargo beijo da noite” já na madrugada de domingo, na sétima posição da noite. – Claro que o desenvolvimento, assinado pelo enredista Diego Araújo, é muito diferente hoje do que seria há 25 anos. Vamos abarcar todo tipo de profissional do sexo, mulheres e homens. A história ganhou muita poesia, também.

Assim que o enredo foi anunciado, os canais de comunicação da escola e do carnavalesco começaram a bombar.

– Meu telefone estava no Instagram, então começou a tocar e não parou mais – conta ele. – Apareceram profissionais e associações de todo o Brasil querendo desfilar, muita gente agradecendo, a comunidade trans embarcou no enredo, os homens prostitutos também

Dentre as estrelas convidadas, Elisa Sanches, conhecida por seu conteúdo adulto nas redes, é uma das mais empolgadas e gratas.

– A Porto da Pedra valorizou demais o trabalho das meninas que estão na noite, que são acompanhantes – avalia ela, que desfilará no alto de um carro alegórico. – Não é fácil, você sofre muito preconceito, tem que entender as cabeças diferentes das pessoas, é tachada de puta… E o nosso trabalho muitas vezes salva relacionamentos.

Orgulhoso com a presença de Elisa e de profissionais como Vivi Castelo, presidente do coletivo Das Divas, Quintaes se diz especialmente feliz com Lourdes Barreto, de 83 anos, uma das principais defensoras das trabalhadoras sexuais no Brasil, fundadora do Gempac, Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará.

– Sou nascida na Paraíba, mas me mudei para o Pará na década de 1950 – diz Dona Lourdes, sendo paparicada em uma visita ao barracão da escola, no começo da semana. – Sofri violência sexual quando era criança, mas não foi isso que me levou à prostituição. Fui ser puta porque quis, é uma escolha, uma profissão como qualquer outra.

Paralelamente à atividade, ela embarcou em uma vida de ativismo, que incluiu a luta pelas Diretas Já, nos anos 1980, e a fundação da Rede Brasileira de Prostitutas (RBP) ao lado de Gabriela Leite (1951-2013), conhecida pela criação da grife Daspu, que deu visibilidade à categoria a partir dos anos 2000. As duas lançaram biografias: “Filha, mãe, avó e puta”, de Gabriela, em 2009, e a “Puta autobiografia” de Lourdes, em 2023.

ssim como a “moça de família” representada no desfile – que começa com um navio chegando ao porto do Rio com as polacas, mulheres levadas à prostituição por falsos casamentos –, Lourdes se orgulha de sua descendência.

– Tenho quatro filhos, dez netos e 14 bisnetos – enumera. – Criei meus filhos sozinha, claro, porque, ninguém queria ser pai de filho da puta.

É claro quem nem só de adesões vive um enredo sobre a história da prostituição.

Aos poucos, as prostitutas foram aceitas como pessoas normais pela comunidade.

– E é claro que, dentro da categoria, existem opiniões diferentes – diz Quintaes. – A luta pelo reconhecimento da profissão, por exemplo: muitas preferem o trabalho independente, não querem carteira assinada, acham que a atividade é assim.

om apenas 60 minutos de desfile, ele não tem a pretensão de contar uma história milenar.

– São só três carros alegóricos, quem me dera ter pelo menos cinco – lamenta ele, com um sorriso. – Começo com o povo de rua, pedindo proteção para elas, que são trabalhadoras da rua, depois vêm as polacas e os marinheiros. Sei, inclusive, que isso incomoda a comunidade judaica, mas não podemos correr da História. Elas foram o primeiro coletivo de prostitutas no Brasil, criaram até seu próprio cemitério.

Daí, o desfile envereda pelo trottoir dos pontos de prostituição no Rio, chegando à atual era digital.