ONU alerta para risco de morte de 14 mil bebês em Gaza enquanto Israel autoriza entrada de 100 caminhões de ajuda

ONU alerta para risco de morte de 14 mil bebês em Gaza enquanto Israel autoriza entrada de 100 caminhões de ajuda

Entrega de insumos à população civil palestina foi retomada na segunda-feira após dois meses, com a entrada de cinco caminhões — uma fração dos 300 que as Nações Unidas apontam como número ideal

O subsecretário-geral para Assistência Humanitária da ONU, Tom Fletcher, afirmou nesta terça-feira que 14 mil bebês podem morrer nas próximas 48 horas na faixa de Gaza, se carregamentos de ajuda humanitária não chegarem rapidamente à população civil.

A declaração da autoridade das Nações Unidas acontece em um momento em que Israel intensifica seus ataques contra o território palestino, e mesmo com as primeiras autorizações para retomada da distribuição de insumos básicos, com a liberação de cerca de 100 caminhões nesta terça, o número está muito aquém dos 300 estimados pela organização como número ideal para atender às necessidades mínimas de 2,3 milhões de habitantes do enclave.

— Deixe-me descrever o que tem nesses caminhões: é comida para bebês. Nutrição para bebês. Existem 14 mil bebês que vão morrer nas próximas 48 horas se não conseguirmos alcançá-los. Isso não é comida que o Hamas vá roubar — afirmou Fletcher em entrevista à Rádio 4 da BBC. — Quero salvar o máximo possível desses 14 mil bebês nas próximas 48 horas.

Questionado sobre como a ONU chegou a esse número, Fletcher respondeu que a organização tem equipes no terreno, afirmando que embora muitos dos funcionários tenham sido mortos ao longo da guerra, ainda contam com “muitas pessoas no terreno”.

— Elas estão nos centros médicos, elas estão nas escolas… tentando avaliar as necessidades — afirmou.

O cenário desolador descrito por Fletcher ocorre após mais de dois meses de bloqueio total imposto por Israel ao envio de ajuda humanitária ao enclave. As Forças Armadas israelense fizeram um cerco total ao enclave a partir de 2 de março, quando o acordo de cessar-fogo negociado no começo do ano para troca de reféns por prisioneiros colapsou. Desde então, organizações internacionais que atuam na região chamam a atenção para o risco de escassez de água, comida, combustível e medicamentos.

O bloqueio total foi rompido na segunda-feira, quando o governo israelense autorizou a entrada de nove caminhões com carregamento de alimentos. O Escritório da ONU para Assuntos Humanitários informou nesta terça, no entanto, que apenas cinco efetivamente entraram no enclave, por “questões logísticas”. Uma nova autorização foi concedida pelos militares israelenses nesta terça, para cerca de 100 caminhões, segundo a mesma fonte.

— Esperamos, é claro, com essa aprovação, que muitos deles, espero que todos eles, cheguem hoje a um ponto onde possam ser recolhidos e levados para o interior da Faixa de Gaza para distribuição — disse o porta-voz Jens Laerke durante uma entrevista coletiva.

Questionado sobre o número de 14 mil bebês em risco de morte, citado por Fletcher, o porta-voz disse apenas saber “com certeza que há bebês que precisam urgentemente desses suplementos para salvar suas vidas, e que precisam ser fornecidos porque suas mães não conseguem alimentá-los sozinhas”, contudo, não confirmou o número exato mencionado pelo chefe.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, justificou na segunda-feira que a autorização dada pelo governo para o fim do bloqueio total foi motivado por “razões práticas e diplomáticas”, afirmando que “amigos” de Israel não admitiriam ver cenas de fome em massa em Gaza. No mesmo anúncio em vídeo, o premier afirmou que as operações militares seriam mantidas e que iria tomar o controle do território — o Exército já havia dito no dia anterior que os ataques seriam intensificados.

Equipes de emergência da Faixa de Gaza, ligadas à administração do Hamas, anunciaram nesta terça que ao menos 44 pessoas morreram em bombardeios israelenses desde a madrugada. O porta-voz da Defesa Civil palestina, Mahmud Bassal, disse que a maioria desses falecidos, registrados por hospitais no enclave, era de crianças e mulheres.

Oito das vítimas estavam em uma escola, que vem servindo de abrigo para pessoas deslocadas na Cidade de Gaza. Outras 15 morreram em um bombardeio contra um posto de gasolina no campo de refugiados de Nuseirat e nove em um edifício no campo de Jabaliya.

Em um comunicado emitido pelo Exército israelense nesta terça, o chefe do Estado-maior, Eyal Zamir, condenou “qualquer declaração que lance dúvidas sobre a ética das operações das IDF e a moralidade de seus combatentes”.

“As FDI e seus combatentes operam contra nossos inimigos, por lealdade aos valores das FDI, à lei e ao direito internacional, ao mesmo tempo em que protegem intransigentemente a segurança do Estado de Israel e de seus cidadãos”, diz o comunicado. “Os combatentes das IDF estão trabalhando e continuarão trabalhando, dia e noite, em todas as frentes, com determinação e moralidade, como sempre fizeram”.

Embora o comunicado não tenha endereçado nenhum destinatário em específico, o texto foi publicado após o presidente do Partido Democrata de Israel, Yair Golan, declarar em uma entrevista à rádio pública do país que “um país são não mata bebês por hobby”.

— Israel está a caminho de se tornar um Estado pária entre as nações, como a antiga África do Sul, se não voltar a se comportar como um país são — disse o líder da sigla de esquerda. — Um país são não trava guerra contra civis, não mata bebês por hobby e não estabelece metas que envolvam a expulsão de populações.

Os comentários de Golan, um ex-major-general das Forças Armadas, foram amplamente condenados por todo o espectro político israelense. O premier Netanyahu o acusou de “incitação selvagem” contra as tropas israelenses e de “ecoar os mais desprezíveis libelos antissemitas contra o Estado de Israel”. O líder da oposição, Yair Lapid, escreveu em um comentário na rede social X que a afirmação de que os soldados israelenses, chamados por ele de “heróis”, “matam crianças como hobby é incorreta e é um presente para nossos inimigos”.

O Ministro da Educação, Yoav Kisch, do partido de Netanyahu, pediu uma investigação por incitação contra Golan, que não tem imunidade parlamentar por não ser um membro da Knesset.

(O Globo com AFP)

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